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Retratos de Nova Iorque: Jorge Colombo
Por Lúcia Marques
Storm Magazine, Julho 2004



Lúcia Marques: Qual é a tua ligação a Nova Iorque neste momento?

Jorge Colombo:
Amor profundo. Faz-me feliz só de pensar nela. É como estar apaixonado por uma pessoa: vemos-lhe defeitos à mistura com esplendores, mas não queremos outra. Se tiver de acabar aqui os meus dias, sem nunca ter vivido em mais lado nenhum, considero-me satisfeito.

LM: O que te fez vir para cá em 1989?

JC:
Para cá é como quem diz: comecei por vir para Chicago, e ainda passei dois anos em São Francisco antes de vir para Nova Iorque. Vim visitar a minha namorada Amy Yoes por um par de meses, mas casei e não voltei. Mas eu não contei já isto uma porrada de vezes?!... Quem estiver interessado em minúcias biográficas que vá ao meu site e se entretenha a ler coisinhas. Quando é que tu começas com perguntas a sério? Ou queres te sugira eu perguntas? Olha que não me ensaio nada! Queres?

LM: Eu percebo o teu ponto de vista, mas as minudências biográficas importam e as pessoas que te vão ler não devem saber nada sobre ti ou muito pouco, a ideia é dar uma pequena introdução do perfil para poder avançar para perguntas mais específicas e no âmbito da experiência da cidade, que é o tema comum aos perfis, mas se queres dar sugestões dá, não te quero censurar...

JC:
Claro, mas porque é que não vamos directos ao que eu PENSO, em vez de o que eu SOU? Como leitor é-me sempre mais interessante ler ideias do que factos -- ainda por cima um gajo com uma biografia tão banal como a que eu tenho. Querem saber? Portuga, artista comercial (ilustrador, designer, fotógrafo), casou com uma camóne, vive nos EUA vai fazer 15 anos. Andou pela América toda, conheceu muita gente, vai pouco a Portugal -- pronto, está contado. Não é mais interessante pedires-me para descrever o meu meio profissional? (Estás ao corrente, sabes como funciona?) Ou a obra que vou fazendo, e a que quero fazer? Descrever onde me espalhei e onde acertei? Falar dos meus heróis, dos meus exemplos? Ou, se queres a conexão lusa, perguntares o que de português eu conservo na minha vida?

LM: Quando te perguntei sobre o que te fez mudar para Nova Iorque imaginava que seria, também, por razões profissionais. Foi curioso reagires imediatamente como se eu tivesse uma abordagem exclusivamente biográfica... Queremos saber o que tu és nessa cidade, o que inclui o que tu pensas, claro!...

JC:
Pronto, pronto, tens razão. É que me canso de repetir a mesma catequese. A resposta certa é: eu trabalho em revistas (quer a fazê-las, quer a fazer coisas para elas) e 80% das revistas que admiro fazem-se em Nova Iorque. Claro que se pode colaborar de longe, mas a presença pessoal dá jeito, além de que dá gosto -- privo com gente do caraças. No campo editorial, a maioria do elenco de profissionais acha-se em Nova Iorque. Considerando que eu aprecio a cidade, não me posso queixar.

LM: Por exemplo, pegando na revista Jungle, onde actualmente desempenhas a função de Art Director, com que tipos de desafios te deparas diariamente e que se prendem especificamente com o mercado editorial nova-iorquino?

JC:
O embaraço da escolha, por exemplo. Para cada foto, cada ilustração que encomendo, examino catadupas de amostras e websites, até acertar no freelancer que melhor resultados promete. Claro que é uma lotaria: em última análise, qualquer deles faria boa figura. Mas tem que se usar um critério qualquer, seja ele o de escolher gente com experiência do tema, para evitar surpresas, ou gente inesperada, para resultados invulgares; ou discernir nas entrelinhas dum portfolio sensibilidades adequadas à tarefa; ou investir em escolhas de prestígio, tanto duma vedeta que se consegue contratar, como dum estreante que começa a dar que falar. Ou simplesmente escolher alguém que cobre preços módicos! Interessante é que, sendo eu também um freelancer na fotografia e nailustração, me vejo nos dois lados do negócio: passo a vida a contratar colegas ilustradores, ou a ser contratado por colegas designers. É uma situação algo rara, mas divertida: ajuda-me a entender melhor os requisitos e problemas da pessoa com quem estou a lidar. E a aprender com quem é melhor que eu! Adoro trabalhar com gente que admiro, e tirar deles os ensinamentos que puder. O outro desafio é o mercado, tenso e sem piedade. Revistas de todo o género passam a vida a falir. Por isso há que achar o difícil equilíbrio entre ousadia a segurança. O conteúdo acaba muito filtrado. Todos queremos ser independentes e arriscados; mas não queremos naufragar o barco connosco dentro! A controvérsia não é banida, mas passa sempe pelo crivo: "vale a pena arriscar fiascos e hostilidades só pelo princípio de fazermos o que queremos? Ou mais vale emendar a coisa, para evitar chatices?" Bem sei, não devia ser assim... mas nem toda a gente gosta de passar dez meses sem emprego por causa de bravatas de lana caprina. Não nos esqueçamos de que revistas não são Arte: são um produto comercial para seduzir fregueses.

LM: De que modo é que achas que o que fazes reflecte a cidade onde vives e trabalhas? (Estou a pensar na relação mais evidente das tuas personagens urbanas dos Dailies e, claro, no Fullerton, mas também nas tuas fotografias, que conciliam uma abordagem mais intimista, próxima também do teu círculo de amigos, e o fascínio pelo diário de viagem...)

JC:
Pronto, agora não estamos a falar de emprego, estamos a falar de trabalho pessoal. Eu sou um gajo figurativo, o que é que se há-de fazer? Não me interessa inventar imagens, interessa-me capturá-las da realidade -- mais específicamente, da minha realidade afectiva. O que me leva a retratar (por desenho ou fotografia, francamente não faço distinção) coisas que me emocionam, ou coisas que eu quero que me emocionem mais... ou coisas pelas quais me quero emocionar menos! Tipo coleccionador de borboletas. Nos dias de Chicago estava mais seduzido pela arquitectura anónima e industrial da cidade, em Nova Iorque fascinei-me desde o começo pelo caleidoscópio de estilos vestimentários com que se tropeça na rua, e desde que adoptei câmaras digitais descobri quão pormenorizadamente eu podia documentar poses, corpos, indumentárias, expressões. E o ano passado (no projecto Fall03, no meu site) tirei partido da rapidez do processo digital para "expor" uma foto por dia num website, que acabou por funcionar como diário de alguns meses muito intensos.

O problema de retratar Nova Iorque é que já foi imensamente feito.

Claro que o Shakespeare também já foi muito feito, o que não impede imensa gente de tentar novas leituras. E esta cidade tem uma composição histórica-étnica-química-mítica-sentimental tão densa, que por mais que a remexas haverá sempre filões em que nem tocas de longe. Tantas memórias, tantas novidades, tantos nomes esquecidos, tantos por descobrir. Eu podia dedicar-me a outra coisa; mas esta é a cidade que me faz feliz, e isso tem que ser registado.

LM: Que nomes tens "descoberto", ou de outra maneira, a pergunta esperada -- quais são os teus heróis no momento?

JC:
As últimas pessoas que descobri foram dois ilustradores, a francesa Genevieve Gauckler e o Leif Parsons, um gajo que começa a dar que falar aqui em Nova Iorque e é fenomenal. Tirando isso, vai por fases: passo literalmente um mês ou dois obcecado por um par de pessoas, depois interesso-me por outras. Que podem ser gente como o Raymond Depardon ou o Christopher Doyle, a Yuko Shimizu ou o Orson Welles, o Mike Figgis ou a Jessica Wynne, a Leanne Shapton ou o Brian Eno, o Takashi Homma ou o Floc'h, o Marcel Dzama ou o Hitchcock, a Juliette Borda ou o Robert Elswitt, o Gary Panter ou a Sophie Calle, o Paulo Nozolino ou o Wes Anderson...

LM: Imagino que surjam novos projectos em paralelo a partir desses contactos. De que modo é que a diversidade cultural, transglobal, de uma cidade como Nova Iorque influencia os teus diversos projectos?

JC:
É porque tem personagens de todos os calibres, várias por quarteirão. Tens peixe miúdo ambicioso, tens tubarões lendários, tens excêntricos instáveis... Mesmo que só te calhem uns poucos na rifa (este mês por exemplo estive a colaborar em projectos com uma troupe de dança que coreografa heavy-metal em tons de cabaret; e também com um músico que oscila entre projectos de vanguarda e rock de inspiração eslávica) tens sempre a sensação de que há um universo de gente ao teu dispor. Ou para te inspirar, ou para fazer coisas contigo. Nunca acaba.


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