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Pessoal ... e Transmissível: Jorge Colombo
Por Carlos Vaz Marques
TSF Rádio, Abril de 2006 / Notícias Magazine, 2006
O nova-iorquino Jorge Colombo garante que se vive mais confortavelmente em Lisboa do que em Nova Iorque. Prefere, no entanto, a trepidação de quem está disposto a recomeçar permanentemente do zero. Por isso, depois de uma carreira sólida como designer e ilustrador, prefere agora fazer filmes e fotografias. Os retratos que acompanham esta entrevista têm a sua assinatura. A NM desafiou-o a dar-se a ver pelo seu próprio olhar. Jorge Colombo revela-se (ou talvez se esconda) em três tons, numa semi-obscuridade monocromática. Auto-retrato do artista enquanto fala.
A visão é o mais importante dos seus cinco sentidos?
Acho que a memória é mais importante.
Normalmente a memória não se credita como um dos cinco sentidos.
Já há muito tempo que temos estes cinco sentidos: temos que acrescentar mais um.
O sexto sentido é a memória?
Absolutamente. Eu passo a vida a recordar aquilo que me aconteceu. A tentar entender, examinar, tudo aquilo que se passou. Na nossa bagagem os arquivos são tão importantes como as ferramentas.
É por isso que faz tantos álbuns, tantas colecções de imagens: para guardar memórias?
Claro. Parafraseando o outro: "uma vida indocumentada quase não merece ser vivida". Quando era mais novo gozava -- como toda a gente goza -- com o cliché dos turistas japoneses que param em frente de um monumento, tiram milhões de fotografias e se vão embora. Hoje em dia, já não acho tão estranho como isso.
É por isso que está a ter esta conversa de máquina fotográfica na mão: anda sempre com ela?
Absolutamente. Se pudesse escolher entre passar cinco minutos no Paraíso mas tirar uma fotografia ou passar lá um ano inteiro e não poder ficar com imagens, preferia a primeira hipótese. O documento é mais importante do que a experiência.
Isso não contraria a ideia de que a memória é o valor fundamental? A nossa memória não precisa de documentos físicos para existir.
Não precisa, mas a verdade é que a memória é feita dos documentos que nós temos. A memória são os resquícios com que ficamos. É evidente que podemos trabalhar em termos puramente abstractos. Podemos mesmo não fazer nada, limitarmo-nos a pensar naquilo que podíamos fazer.
Aprende-se a ver ou saber ver é um dom?
Aprende-se. Imenso. Aprende-se olhando para as outras pessoas. Vendo de novo aquilo que fazemos. Aí está uma das vantagens de termos documentos.
Ver outra vez?
Ver aquilo que nós fizemos, aquilo que outras pessoas fizeram. Descobre-se sempre qualquer coisa nova.
Qual é a mais antiga e mais importante lição para o seu olhar de que se recorda?
Talvez a minha maior memória seja das coisas que comecei a descobrir que soavam àquilo que eu queria ver e pensar: os grafismos dos livros da & etc., os filmes do Wim Wenders, da fase anos 70, ou do Woody Allen, também da fase anos 70, as pinturas do Mário Botas ou do David Hockney.
Tem antecedentes artísticos na família?
Nenhuns. Embora o meu irmão também faça mais ou menos a mesma coisa que eu faço. Estranhamente, começámos os dois a fazer a mesma coisa.
Será o facto de terem tido um vizinho ilustrador que explica esse interesse comum?
Nós vivíamos em Linda-a-Velha, na porta ao lado do Vítor Mesquita, que na altura, nos anos 70, fazia banda desenhada. Isso foi bastante marcante na nossa formação. Por tudo aquilo que eles nos ensinou, para que nos chamou a atenção. Foi importante mas nós tínhamos lá chegado de outra forma. Não foi necessariamente ele que nos abriu os olhos mas foi ele que nos encaminhou.
Quando se inscreveu em Belas Artes queria ser pintor?
Eu não sabia absolutamente nada do que queria fazer. Quando lá cheguei, abominei.
Alguma vez chegou a querer ser pintor?
Cheguei a querer ser pintor irresponsavelmente e sem pensar muito no assunto.
Irresponsavelmente?
Absolutamente. A coisa mais importante que eu percebi nas Belas Artes foi que não me interessava o circuito das artes plásticas expostas em galerias. Interessava-me o circuito das artes plásticas publicadas. Embora, imensos dos meus amigos sejam artistas plásticos que expõem no circuito das galerias e dos museus: sou casado com uma artista que vive nesse circuito.
Uma artista norte-americana.
A Amy Yoes. Mas continuo a achar que aquela é uma forma muito pouco eficiente de mostrar o trabalho.
Por chegar a muito pouca gente?
Absolutamente. Ponho uma coisa numa galeria e vão lá 50, 100, 500 pessoas durante esse mês. Depois, fechou e não há hipótese. Se o trabalho foi vendido para um coleccionador privado fica na casa de uma pessoa e ninguém o pode ver. Enquanto que, se eu puser qualquer coisa num livro ou num postal, num cartaz ou na internet, a coisa circula por todo o lado. Imagine-se como seria se os poetas e os escritores escrevessem apenas no original e o original fosse vendido. Ridículo! Por isso não me interessava trabalhar nesse circuito de originais.
Sente-o como quase clandestino?
Para mim, é. É evidente que também há imensas coisas a ganhar da experiência riquíssima do original. Mas, para mim, são vantagens que não suplantam as vantagens da publicação, da reprodução.
O que é que lhe correu mal nas Belas Artes para só lá ter ficado um ano?
A arrogância dos 18 anos. A arrogância manifestou-se, por exemplo, no facto de eu estar familiarizado com alguns professores e não ter propriamente grande ideia deles. Não era exactamente o género de pessoas que admirasse. A minha atitude de jovem arrogante de 18 anos era: estão a gozar comigo; estes gajos é que me vão dar aulas? como é possível? A excepção que faço é, por exemplo, o Lagoa Henriques que era um professor incrível: uma coisa espantosa. Fazia-nos pensar na grande Arte, na pequena arte, no trivial, no pessoal, no global, na História, no presente, no futuro, na anedota -- Tudo.
Hoje é ilustrador, designer, fotógrafo: em qual destas actividades se leva mais a sério?
Neste momento todas as ideias que tenho são ideias para fotografia e, mais recentemente, para filmes. Continuo a estar interessado em fazer desenhos, mas menos. É sempre bom termos a sensação de que somos jovens outra vez: que somos inocentes, ignorantes, inaptos e que estamos a descobrir coisas por nós mesmos. Estou a tentar lembrar-me do que eram as coisas quando tinha 17 ou 18 anos.
É isso que o motiva a fazer os filmezinhos de 1 minuto que põe na internet?
Sim. Porque, assim, há coisas que descubro por mim mesmo. Qualquer pessoa que tenha experiência ou que tenha trabalhado com outras pessoas conhece de cor e salteado tudo aquilo, mas para mim é uma descoberta. É um momento de milagre. Isso faz-me sentir como no princípio.
Gosta mais de descobrir do que de fazer bem?
Acho que o profissionalismo é sobrevalorizado e o amadorismo é subavaliado. Cada vez mais as pessoas são levadas a pensar que, porque fazem qualquer coisa, têm que ganhar a vida com isso, que têm que ser boas, campeãs nisso. Na minha família, até à geração anterior à minha, toda a gente tocava algum instrumento, o que não quer dizer que viessem perguntar-lhes se tinham algum contrato com uma editora. É importante fazermos coisas sem termos necessariamente a esperança de sermos reconhecidos publicamente. Fazendo-as com a maior das sinceridades e o maior dos entusiasmos e auto-realização.
Com qual das suas actividades, que agora já são quatro, ganha a vida?
Com todas. É a minha forma de lutar contra a recessão americana.
Então, afinal não é só ingenuidade e amadorismo: se ganha a vida com todas elas, acaba por fazer de todas elas profissão.
É verdade, mas são duas coisas diferentes. Aquilo que nós oferecemos ao público não é necessariamente aquilo que nós oferecemos a nós mesmos. Trabalhamos em dois registos. Eu faço as coisas que me interessa fazer, para mim mesmo. Nesse sentido, trabalho com o meu próprio calendário, o meu próprio ritmo e os meus requisitos.
Depois tem a sorte de, às vezes, ainda lhe pagarem por isso.
Por coisas que me interessa fazer ou por coisas que já não me interessam tanto como isso. Temos que admitir que há quem queira comprar e por isso nós fazemos. É assim que se paga a renda.
É o que se passa com as suas actividades de designer e de ilustrador?
O design, por exemplo, foi uma das coisas que fiz a tempo inteiro e que, hoje em dia, tento fazer a tempo o mais parcial possível. Cheguei à conclusão de que é a coisa mais efémera de tudo o que faço.
Mas os livros ficam.
Infelizmente! Uma das coisas que detesto é encontrar, quando venho a Portugal, bodegas que fiz quando tinha 22 anos.
As capas dos primeiros livros do Raymond Carver ou do Brett Easton Ellis, por exemplo: já não gosta delas?
De umas gosto, de outras não. Há asneiras inteiras que ficam. Às vezes, tenho vontade de oferecer um remake à borla só para retirarem aquilo das bibliotecas.
Há uns anos dizia que se fosse obrigado a escolher entre as três -- na altura ainda eram só três -- actividades que tinha (ilustração, design, fotografia) optava pela ilustração. Já não era essa a escolha que faria hoje?
Não. Era a fotografia.
O que é que a fotografia lhe dá que as outras actividades não lhe dão, além do tal sentido de descoberta?
É instantânea. Estou numa fase em que começo a preocupar-me com o tempo que se leva a fazer um desenho. Não nos esqueçamos de que aquelas aguarelas que as pessoas conhecem, se eu me enganava a fazê-las tinha que as recomeçar do início. Cada desenho podia levar-me um ou dois dias. Com a fotografia é mais fácil fazer, refazer e ver imediatamente, porque trabalho em suporte digital. A resposta é mais imediata. Tenho mais a consciência do tempo que se perde.
Ao fim de 17 anos a viver nos Estados Unidos, vê-se a si próprio como um emigrante ou como um exilado artístico?
Vejo-me como um português mas, ao mesmo tempo, também me sinto um nova-iorquino. Nova Iorque é o sítio que eu encontrei mais preparado para deixar as pessoas fazerem parte do seu caldo de cultura. Sem, todavia, perderem a identidade que têm.
Já é cidadão norte-americano?
Ainda não fiz a naturalização mas jogo integralmente o jogo do cidadão local.
Não tem planos para regressar a Portugal?
Não. Se tivesse que sair dos Estados Unidos, ia tentar viver num sítio onde nunca tivesse estado. Para que é que havia de voltar a um sitio onde já estive?
Não é dado a melancolias e a saudades do torrão natal?
Do torrão natal, não. Mas estou em contacto constante com Portugal, evidentemente. Recebo toda a espécie de imagens, de livros, de poemas, de escritos, de histórias. A primeira coisa que faço quando chego aqui é ir às livrarias e ver o que saiu, descobrir os filmes. E, ao mesmo tempo, traduzir isso para os meus amigos americanos com quem o quero partilhar. Quando se é estrangeiro temos que traduzir não só as palavras como também os conceitos. O conceito europeu de subúrbio, por exemplo, é pouco atraente: são casas menos interessantes, urbanismos mais feios...
Exactamente o oposto do conceito americano.
O subúrbio americano é o das vivendas, de gente protegida, gente bem. Quando eu falo, por exemplo, da experiência anos setenta, essa experiência portuguesa é diferente da experiência anos setenta americana ou inglesa. Dentro da nossa cabeça temos que pensar se as pessoas entendem aquilo que nós dizemos.
Consegue imaginar em que medida é que aquilo que faz hoje é já americano?
Acho que é bastante americano.
Perguntando de outra maneira: o que é que seguramente não faria se tivesse continuado em Portugal?
Talvez não tivesse sido obrigado a tomar a iniciativa. Isto é um bocadinho difícil fazer crer, mas Portugal é mais confortável para se viver do que os Estados Unidos. Quando eu penso em qualquer pessoa nos Estados Unidos -- um professor, um médico, um director de museu, um artista -- o seu equivalente português tem, normalmente, uma casa um bocadinho maior, tem umas férias um bocadinho maiores, ganha mais dinheiro, tem um carro melhor.
Ninguém vai acreditar nisso, de facto.
É verdade. Em geral as pessoas não sabem disso. Todas as pessoas que eu conheço, no meu círculo, tem que bulir como doidos para ganharem a vida.
Porque a competição é muito maior?
São muitos cães a um osso. Por um lado nunca ninguém quer saber se uma pessoa é pobre ou rica ou alta ou baixa, ou feia ou russa ou polaca ou africana... Uma pessoa singra por aquilo que faz. Mas é muito difícil e, com frequência, as pessoas estão a fazer aquilo que querem fazer e ao mesmo tempo a servir copos em bares, a guiar táxis, a fazer toda a espécie de coisas que aqui talvez não tivessem que fazer. Se eu tivesse ficado cá é quase certo e seguro que teria arranjado tachos bastante mais confortáveis do que aqueles que tenho lá.
Teria ficado parado no mesmo sítio durante anos?
Não tenho a mínima dúvida que me teria sido oferecida uma situação tão confortável e tão atraente que eu não seria capaz de a recusar. Depois, quando desse por ela, não tinha saído dali.
Não andava com essa máquina fotográfica na mão, portanto.
Andava, andava. Não esta mas outra. Só que ao contrário do que faço agora não divulgava. Limitava-me a deixar aquilo em álbuns, que ao fim de vinte anos são grandes documentos de uma Lisboa que já não existe, de uma série de pessoas que já não existem ou existem de uma forma muito diferente.
O que é que lhe dá então razões para continuar a viver em Nova Iorque e não em Portugal, onde diz que teria uma situação mais confortável: não gosta do conforto?
É mais real, para mim. É como estar numa grande competição desportiva. É mais importante, para mim, estar rodeado de todas aquelas pessoas que são estimulantes.
Já uma vez disse que era mais lisonjeiro conseguir singrar entre muitos do que obter um lugar apenas entre meia dúzia.
Mesmo sem pensarmos em termos de lisonja, podemos pensar simplesmente em termos de nos compreendermos melhor. Prefiro partilhar ideias com pessoas que realmente me desafiam. Em Portugal não há tanta gente como isso. Todavia, há imensa gente espantosa. Cada vez que venho cá vejo coisas estimulantes, quer entre as pessoas da minha geração ou anteriores quer entre a fabulosa geração subsequente que é cada vez mais interessante. Adoro descobrir pessoas novas em Portugal. Mas em Nova Iorque, simplesmente, há mais gente. Toda a gente lá vai parar.
Qual é a maior diferença que detecta, pondo de parte a escala, entre Lisboa e Nova Iorque?
Em Lisboa é tudo muito mais novo. É muito mais fácil encontrar-se o século XIX ou o século XVIII em Nova Iorque do que em Lisboa.
Isso quer dizer o quê?
Em Nova Iorque é tudo a tão alta velocidade que quase não há tempo para se emendar nada. As coisas estão coladas com fita-cola: são aparafusadas, emendadas, não há tempo para as polir. As estações de metropolitano em Nova Iorque são catacumbas podres. Aqui há tempo suficiente para se fazerem projectos de arte pública interessantes.
Prefere a velocidade ou as coisas bem acabadinhas?
Tanta coisa importante para mim se passa no contexto de Nova Iorque que é difícil dissociar o contexto do resultado. Às vezes as coisas podem ser demasiado compostinhas.
De que é sente falta de Portugal quando está em Nova Iorque?
Dos pastéis de Belém.
O que é que lhe falta quando vem a Portugal?
Lojas abertas toda a noite. É completamente intolerável esta ideia das coisas fecharem para o almoço ou durante a noite.
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