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A Luz do Vidrinho
por Francisco Vaz Fernandes
Parq 12, Maio de 2009



O milagre nas tecnologias acontece quando elas se humanizam e vão além de meras ferramentas de trabalho. Os isketches de Jorge Colombo são desenhos digitais que nos deixam um brilho nos olhos. Vê-los acontecer é tão mágico como uma aguarela acontecer numa tela. Remetem o digital para o conforto do toque humano.

O iPhone tem uma ferramenta chamada Brushes que permite fazer desenhos directamente no ecrã do telefone. Podem assumir aspectos variados e ter o efeito de uma xilogravura ou de um desenho a carvão, entre outros, mas nas mãos de Jorge Colombo parecem-se com aguarelas ou pinturas feitas a pastel. Colombo, ilustrador e fotógrafo radicado em Nova Iorque há vários anos, pegou no Brushes e começou a desenhar com ele situações e ambientes da cidade onde vive. Os iSketches tornaram-se mediáticos e captaram a atenção dos jornais e televisões norte-americanas. Já o chamam "the iPhone artist".

O processo de composição é simples, mas o resultado infinitamente grande. Colombo passeia-se por Nova Iorque e inspira-se em cenários do quotidiano. Esquinas recortadas, táxis e transeuntes, cafés e lavandarias, edifícios que demarcam o céu, apeadeiros do metro. Pára, pega no seu iPhone, abre o Brushes e começa lentamente a desenhar com o dedo indicador cada pormenor daquilo que vê. Compõe os edifícios, desenha os carros, constrói cada janela, preenche os desenhos de cor, luz, sombreados e movimento. Ganham vida no pequeno rectângulo do seu telefone. O primeiro esboço que lhe saiu bem foi um desenho rápido da sua mulher e posteriormente ficou satisfeito com outros que fez numa viagem, dentro de um carro, às escuras. Aquilo que mais o cativa é a luz do próprio telemóvel: "A luz! Com tanto da nossa interacção -- desde o email aos espectáculos ou às finanças -- efectuada em ecrãs, faz sentido apreciar desenhos feitos de raiz numa máquina. Os ecrãs são as nossas bolas de cristal, neles navegamos pelo passado, pelo presente, pelo futuro. Fazemos-lhes perguntas e imensas vozes respondem. Além disso, o Brushes é um programa irrepreensível que não tenta fazer demasiado. Faz poucas coisas, mas fá-las bem."

Um dos projectos que tem na manga nasce daquele potencial: "Quero fazer um filme inteiramente iluminado por telemóveis. Imaginem, num clube, aquelas caras todas no escuro com uma luz na bochecha. Podemos passar anos sem a luz duma lareira ou luar sem candeeiros à mistura, mas por outro lado as engenhocas da nossa vida encheram-nos de luzinhas novas a brilhar na escuridão."

Há uma imediatez nos iSketches que faz deles registos fugazes. Em paralelo assemelham-se a aguarelas e pinturas impressionistas que os tornam eternos. Para Colombo a beleza do resultado final dos iSketches está, afinal, na sua identidade enquanto criador: "Continuo fiel a mim mesmo. A composição das imagens, a paleta, a gestão dos pormenores, tudo ecoa no que faço por outros processos, desenho ou fotografia. Toco a mesma música com diferentes instrumentos."

Gosta de usar ferramentas digitais mas a sua preferência está, ainda, na produção orgânica e humana. Ilustra, pinta, fotografa, usa câmaras, mas diz que a magia reside afinal no corpo. Em relação aos iSketches, eles têm algo que já não encontra na fotografia e no desenho: "Não me impressiono muito com ferramentas. Pincéis e instrumentos e câmaras têm o seu papel, mas adoro mais ainda coisas que saem directamente do corpo, como um poema ou uma dança ou um canto, sem acessórios. Por alguma razão fotografo com máquinas pequeninas em vez de artilharia pesada. E gosto de resumir o processo de desenho a um dedo nu que se esfrega num vidrinho e faz... iSketches, por exemplo. Tem algo de magia!"

Perguntámos que motivos gostaria de desenhar se vagueasse por Lisboa de iPhone na mão. Elegeu os recém inaugurados quiosques de refresco. Colombo pouco vem a Lisboa. A terra em si não lhe dá saudades mas mantém-se atento a novidades, tendências e ao meio criativo. "No dia-a-dia de Nova Iorque falo, escrevo e penso em inglês, mas se estou com portugueses volto à pátria por inteiro. Em Lisboa abasteço-me de livros e discos e dvd’s de portugueses. Do território em si não sinto tanto a falta, mas com a cultura tento manter contacto o mais possível. As novas gerações marcam a diferença. Excelentes, a sério. Muito melhores em geral que no meu tempo."

É um homem urbano. Gosta de ruído, movimento e densidade. Não se imagina a viver no campo. "A natureza não me interessa visualmente e chateia-me. O barulho dos grilos é-me de longe mais irritante que o dos carros da polícia." Os cenários citadinos são bastante ricos para os iSketches. Encontramos estes cenários na 20x200, galeria virtual que contraria o modelo de galeria tradicional. Colombo diz que quem lhe compra os iSketches não são os compradores das galerias standard, mas sim coleccionadores do século XXI. Nesta loja há dezenas de bons artistas a vender as suas obras a um preço acessível que respondem ao interesse de inúmeros compradores espalhados pelo mundo. Há trabalhos marcados a partir de 20 dólares e os mais caros custam 2 mil. A arte é para todos.


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