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Gajo do Mundo Inteiro
por Sérgio Miranda
Mac+, Brasil, Julho de 2009



Jorge Colombo, ilustrador português que fez a capa da New Yorker no iPhone, visitado e revisitado

"NÃO: Não quero nada. Já disse que não quero nada.”. Com essas palavras, Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa começa a falar de uma Lisboa que não existia mais em seu poema Lisbon Revisited (1923). E assim, como não querendo nada, Jorge Colombo, ilustrador, agora também fotógrafo e cineasta português conseguiu, como ele mesmo diz, realizar a sua "minúscula contribuição para a história" ao criar inteiramente no iPhone a capa da edição de 1 de junho da The New Yorker, uma das mais influentes publicações do mundo inteiro. E que contribuição, diga-se de passagem.

Vivendo em New York desde 1998, com a esposa norte-americana Amy Yoes, Jorge não é um artista tradicional, quando se entende por "artista tradicional" aquele que trabalha com os mesmos materiais. Começou ilustrador, passou a ser fotógrafo "por que os amigos faziam", e hoje também realiza curta metragens. Em seu site, www.jorgecolombo.com, é possível verificar o extenso e interessante portfolio do autor, principalmente os “Dailies”, desenhos de pessoas comuns que ele foi retratando desde que chegou a New York.

Mas foi com o iPhone que ele entrou para a história. Usuário de Mac desde 1991, Jorge comprou um aparelho no início deste ano, para poder ler seus emails com tranquilidade e também desenhar. Descobriu o aplicativo Brushes e não parou mais. Atualmente, além do seu MacBook Pro de 15 polegadas, Colombo pode ser visto retratando o mundo na palma de sua mão, sozinho, como um Álvaro de Campos dos dias modernos.

Em nossa entrevista a seguir, decidimos manter algumas palavras escritas como se escreve em Portugal. Para comemorar o nosso acordo ortográfico, por assim dizer...



Há quanto tempo você desenha? E quando percebeu que poderia trabalhar como ilustrador?

Desde criança. E comecei a ganhar dinheiro com os desenhos aos 20 anos. Não havia muitos ilustradores de imprensa em Portugal na época, por isso eu tinha uma boa posição no mercado.

Pelo seu portfolio, percebo que você trabalha tanto com desenhos à mão e também digitais. Você tem alguma preferência de material (computador ou papel)? Por quê?

Eu não consigo desenhar no computador, só colorir. As coisas do iPhone não são bem desenhos: no fundo são pinturas. Mas não tenho preferência: o que é importante é alternar! Correntemente desenho todos os dias com a caneta, no comboio. Para dizer a verdade a minha preferência tem mais a ver com o tamanho: desde os 17 anos que não desenho nada que não me caiba na pasta. Os meus originais tendem a ser pequenos, não aprecio particularmente peças grandes... Devo ter um campo de visão estreitíssimo. E agora desenho práticamente na palma da mão.

A fotografia é uma extensão do seu trabalho de desenhista? Como começou a fotografar?

Não, as minhas referências são todas fotográficas. (Ou cinematográficas: idolatro certos directores de fotografia, desde o Robby Muller ao Gordon Willis, ou o Gregg Toland ou o Christopher Doyle.) Comecei a fotografar porque tinha amigos que o faziam. E houve livros que me inspiraram, um deles o lendário "Before and After," um ensaio da Pennie Smith sobre os Clash. Ou os livros do Raymond Depardon. E os retratos do Cartier-Bresson -- não se pensa normalmente nele como um retratista, mas é excelente. Entretanto, claro que a técnica de desenho ajuda a compor imagens, mas eu tento explorar na fotografia aspectos que não se prestariam ao meu tipo de desenho.

Quando começou a desenhar no iPhone? Logo de cara você percebeu as possibilidades do iPhone ou alguém lhe mostrou como ele poderia ser usado para desenhar?

Vi os desenhos do Stephane Kardos no Flickr (é um artista francês que vive em Los Angeles), achei excelentes, e claro que comecei a fazer coisas mais complicadas, não resisto. Mas é tão fácil dominar o Brushes... Para dizer a verdade comprei um iPhone depois de ter carregado o laptop vezes demais para poder ler email urgentes. Vi que havia maneiras mais ligeiras de o fazer.


Quantos trabalhos você já fez com o iPhone? Esses desenhos estão trazendo mais repercussão do que seus outros trabalhos?

Devo ter um pouco menos de 100 desenhos, mas nem todos são interessantes. Sim, a repercussão é incomparável, e não me surpreende. Há sempre factores que ajudam a dar nas vistas: celebridades, sexo... ou o uso de tecnologia recente! Para além de que a New Yorker me colocou numa posição oficialmente inédita -- se alguém já tinha desenhado uma capa de revista num iPhone, ninguém ouviu falar -- por isso isto é a minha minúscula contribuição para a história.


Além do iPhone, qual o seu computador? É um Mac? Se sim, como conheceu a plataforma da Apple? Qual o seu primeiro Mac?

Eu nem sei LIGAR um PC -- se por acaso tenho de usar um, preciso que me ajudem a trabalhar com o Windows. Comecei por ter um Mac Classic em 1991, depois um Quadra, depois outro que esqueci (G3?); a partir de 2001 adoptei laptops e nunca mais usei outra coisa. Em Dezembro passado adquiri o meu terceiro laptop, um MacBook Pro de 15 polegadas.


Que programas usa no computador regularmente, tanto para trabalhar como no cotidiano?

CS2. Além de iMovie, GarageBand, e a excelente ferramenta que é o QuickTime Pro (a versão que custa dinheiro).


Apesar de morar há 20 anos nos Estados Unidos, um de seus trabalhos chama-se Lisboa Revisitada. Como foi esse novo olhar sobre a sua terra natal?

Um artifício: acentuei fotográficamente o carácter cosmopolita, internacional, industrial de Lisboa. Que existe de facto, mas dum modo muito mais disperso e suave que a versão que eu apresento. (Um pouco como só fotografar as árvores e flores de Nova Iorque, para sugerir que se trata de um lugar bucólico e campestre.) A minha Lisboa Revisitada é uma ficção; mas isso faz sentido, pois partiu dos versos dum poeta ele próprio imaginário... e propenso ao abuso de narcóticos, de resto.


O nome da coleção remete a um poema de Álvaro de Campos, heterônimo do grande Fernando Pessoa. As poesias dele influenciaram sua vida tanto assim? Como é retratar esse olhar tão distinto de Pessoa em fotos?

Não, tenho outros poetas mais marcantes: Ruy Belo, Fernando Assis Pacheco, João Miguel Fernandes Jorge, Al Berto. Mas gosto muito do Álvaro de Campos, e como o projecto partiu de um convite de Inês Pedrosa, directora da Casa Fernando Pessoa, tinha de ser uma coisa pessoana, não é? Além de que o Campos, mesmo sendo uma personagem ficcional, tem em comum comigo o facto de ter passado tempo no estrangeiro e de sentir que não pertence inteiramente ao seu país natal. Eu continuo com muitos contactos em Portugal, mas estou inequívocamente de fora.


Os Dailies também são um dos seus trabalhos mais famosos. Como surgiu a idéia de retratar o cidadão comum? Quantos você já fez?

Simples: tinha-me mudado para Nova Iorque sem grande coisa planeada, e andava à procura de casa e de emprego. Queria começar a fazer um projecto no qual pudesse trabalhar só um pouquinho cada dia, mas que ao mesmo tempo me desse uma sensação de realização instantânea. Desenhar cada dia um retrato em tamanho bilhete postal foi a resposta, inspirada pelas personagens que via todos os dias na cidade. A regra -- que ainda continuo a respeitar, quando esporádicamente acrescento desenhos à colecção -- é evitar desenhar figuras únicas e excêntricas: prefiro concentrar-me nas pessoas que correspondem a um tipo, pessoas que eu tenho a sensação de ter visto antes muitas vezes.


Desenho, fotografia e agora também vídeo. Não há como parar? Você se considera um verdadeiro artista que não pode ficar parado no tempo?

O facto de mudar constantemente de medium e de técnica causa-me problemas -- quebra a continuidade, confunde a audiência, dispersa o rendimento -- mas não consigo resistir, é a minha natureza. A vida é demasiado curta para nos guiarmos apenas por estratégias sensatas. Teria sido prudente manter uma carreira estável como fotógrafo, ou como desenhador, ou designer... mas foi o meu destino, nada a fazer agora. Acho que vou continuar a saltar.


Existe algum artista brasileiro que você conhece? Qual? O que acha do trabalho dos brasileiros, seja na fotografia, cinema, ilustração, música...?

Conheço sobretudo música brasileira, e devido quer à minha idade quer ao facto de preferir música pouco dançável, tendo a preferir bardos palavrosos da era anos 60-70: Chico, Caetano... E ouço muita outra coisa, claro, desde Marisa Monte a Carlos Careqa. Mas fora da música, tenho de admitir que tenho muito pouco contacto com a cultura brasileira. Aceito sugestões!


Fale um pouco sobre a capa da The New Yorker, feita totalmente no iPhone. Como foi o processo? Onde estava quando começou a desenhar? Quanto tempo demorou para finalizar o trabalho?

A New Yorker existe desde 1925 e tem uma mística incomparável à sua volta. Toda a gente quer colaborar nela, e quando a possibilidade existe é tudo feito com certa trepidação. Pelo menos ao princípio. A Françoise Mouly é editora de arte da revista desde 1993, e em 1994 encomendou-me alguns projectos (feitos com aguarelas.) Há semanas atrás ela viu imagens minhas feitas no iPhone editadas em múltiplos pela www.20x200.com, e interessou-se. Visitei-a e discutimos a forma de criar uma conexão temática e estilística com capas tradicionais da revista, como as que o Arthur Getz fazia nos anos 50-60 (procurem no www.cartoonbank.com, estão lá). É importante que se perceba que o que lhe interessa não é as minhas imagens serem feitas num telefone: é serem feitas NO MEIO DA RUA. Se eu me sentasse no estúdio e copiasse uma foto no meu iPhone não era a mesma coisa, era ridículo -- podia usar um écran maior! Mas como diz a Françoise, a maior parte dos artistas que ela conhece é difícil fazê-los sair do estúdio, só saem para tirar umas fotos de referência. A ideia de um artista observando e registando a cidade ao vivo era nova. Por isso passei uma semana a passear-me pela cidade, com uma lista que eu fiz de temas e lugares para capas. Cada noite ia para casa com 2 ou 3 desenhos. No fim mandei tudo à Françoise e o Editor, David Remnick, escolheu uma imagem.

Você acha que o iPhone está mudando o mundo, como Steve Jobs disse que faria quando o lançou em 2007?

Tudo muda um pouquinho do mundo, umas coisas em maior escala que outras. Por exemplo, a explosão da internet reavivou o uso da escrita: entre emails e blogs, escreve-se muito mais. A expansão dos serviços telefónicos diminuiu as distãncias. E o acesso instantâneo a serviços da web abrevia muitas esperas. No meu caso, eu tenho esperança que a popularidade crescente de programas como o que eu uso, o Brushes, ajudem a expandir o número de artistas amadores. Acho isso mais importante que o uso profissional. É um pouco como o desporto: claro que são precisos atletas profissionais, campeões, mas em cada fim-de-semana há gente a andar de bicicleta ou a nadar ou a jogar futebol, sem ter ambições olímpicas. Um pouco de expressão artística é tão útil para qualquer pessoa como uma hora no ginásio. O importante não é o resultado, é a experiência: é pôr o corpo ou a cabeça a trabalhar em algo diferente. E se ter no bolso um programa de desenho igual a um artista da New Yorker inspirar gente a criar arte, eu acho isso lindo.

Como você se vê no futuro? Como seria um Jorge Colombo Revisitado? Mais português ou um cidadão do mundo?

Muito sinceramente, não tenho resposta, nunca faço planos. Há um ano nunca imaginaria que um desenho meu num iPhone ia ser visto por mais pessoas que todo o resto da minha obra. E espero continuar a ter surpresas.

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