Colombo conquista a América
por Ricardo Lourenço / fotografia de Daniel Blaufuks
Expresso/Única, Portugal, Julho de 2009
Depois de uma hora à procura do sítio ideal para pintar, Jorge Colombo decide-se: “É aqui mesmo.” No cruzamento da Pitt Street com a East Houston Street, em Manhattan, o espaço é exíguo. Há congestionamento de tráfego, de pessoas e até de tabiques, porque Nova Iorque não pára de crescer.
Mas qualquer cantinho parece chegar para acomodar quase 1,80m de artista e um iPhone do tamanho da palma da mão. O ecrã vira tela e o fino dedo da mão direita transforma-se em pincel. Das centenas de pessoas que por ali vão passando, apenas um velhote asiático se apercebe que o português não está a escrever nenhum SMS ou email. O homem pula, pula, pula, tentando espreitar sobre o ombro do artista. Faz uma série de perguntas em mandarim, porque, afinal, “no english, no english”. Persiste em tentar furar para matar a curiosidade. O repórter não o pode ajudar e Jorge nem se apercebe do frenesim. Está impávido, praticamente, imóvel. Passados 54 minutos, a obra está terminada.
Jorge Colombo tem 20 anos de América, sempre ligado às artes. Da ilustração à fotografia, passando pelo cinema. Há quatro meses, começou a usar o iPhone. Primeiro para telefonar e usar o correio electrónico. Depois, gastou cinco dólares no download da aplicação “Brushes” e começou a pintar e a armazenar. Apenas retratos nocturnos do quotidiano nova-iorquino. “Às vezes, chego a casa às 11 da manhã”, conta.
Um deles foi capa da edição de Junho da “The New Yorker”, revista de referência em todo o mundo, cujas edições são desde 1925 “uma grande novela sobre a vida e paisagem de Nova Iorque. Poder acrescentar um episódio a essa série é emocionante”, confessa.
Jorge conquistou ainda outro ‘privilégio’. Publica todas as semanas, no site da revista, ilustrações originais. É a primeira vez que tal acontece na história da publicação. “A ideia é, cada semana, apresentarmos uma ilustração de um local da cidade e desafiar os leitores a adivinhar qual é”, revela ao Expresso, Françoise Mouly, directora de arte da “The New Yorker”.
Desde 1993, Mouly já editou 800 capas. Verdadeira caça-talentos, considera que “falar do Jorge como um ‘artista iPhone’ é um mal-entendido”. “O interessante nele é a maneira como se deixa surpreender pela cidade, o gosto pelo detalhe e o amor pelas pessoas. Cada imagem conta uma história. Publicaríamos o seu trabalho sempre, mesmo que não tivesse usado o iPhone”.
Jorge Colombo publicara em 1994 uma ilustração na “The New Yorker”. Quinze anos depois, voltou pela porta grande. Aparentemente, Françoise Mouly tinha descoberto os seus iSketches no 20x200.com, um site da galerista Jen Bekman. Dias depois ligou-lhe. “Ela é daquelas pessoas cujos telefonemas são sempre muito emocionantes de receber”, recorda.
Reuniu-se com o pessoal da revista, visitou a biblioteca da publicação onde arrebanhou uma série de trabalhos de Arthur Getz - artista norte-americano que publicou, simplesmente, 213 capas da “The New Yorker”. Mãos ao trabalho, sem nunca ter a certeza de que a primeira página seria sua. “Muitas vezes chamam-nos e depois nem sequer publicam. Por isso, desta vez fiquei calado.”
A 22 de Maio, três dias antes da publicação do número de Junho, era convidado a aparecer na redacção. Chegou e reuniu-se com o departamento de relações públicas. Não só a capa era sua como a partir daí tinha de a promover. Entrevistas atrás de entrevistas. Uma torrente de contactos a um ritmo que não estava habituado.
A vida mudou. Jorge insiste que a verdadeira avaliação do trabalho só aparece “depois da morte” e que, por agora, o “iPhone pode tocar mais vezes, mas a necessidade de persistir continua”. Stephane Kardos, um precursor nos iSketches, nome-referência para o artista português, não tem dúvidas: “Ele é brilhante”, diz em entrevista ao Expresso.
O sucesso pode ser um bom cartão-de-visita para quem quer vingar em Nova Iorque. Mais que não seja, pode ajudar no sustento. É um conforto que Colombo desfruta, com a lembrança de que o destino já lhe pareceu menos risonho, principalmente nos primeiros tempos, em que esteve proibido de trabalhar, sobrevivendo como emigrante indocumentado.
Ir de férias e ficar. Em 1989, o então director gráfico de “O Independente” decidiu visitar a namorada a Chicago. Amy Yoes fora algumas vezes a Lisboa em trabalho. Não se apaixonaram à primeira. Fitaram-se à segunda. A tal ponto que os dois meses de férias tornaram-se nos primeiros dias do resto das suas vidas. “Não voltei. Enviei um fax para o jornal a dizer que ficava.”
Perspectiva de trabalho não havia. “Só a Amy interessava.” Nos primeiros tempos, valeu-lhe as colaborações no Expresso e umas ilustrações que ia fazendo para alguns livros da Dom Quixote, a convite da escritora Inês Pedrosa. “Ainda me lembro do primeiro Natal e do presente que a Amy me ofereceu: um livro com todas as capas da ‘The New Yorker’, desde 1925”. Dois anos depois, casavam-se.
Seguiram-se várias experiências profissionais, nunca parando muito tempo no mesmo sítio. “Se tivesse ficado em Portugal, porventura tinha-me agarrado a um tacho qualquer. A malta habitua-se e perde a iniciativa. Aqui somos forçados a mudar constantemente. Trabalhamos em locais tão diferentes, com meios tão distintos, que acabamos por adquirir mais experiência.” De director gráfico a publicitário, este autodidacta convicto, seguro de que o amadorismo é normalmente ‘subvalorizado’, fez de tudo um pouco. Acabou por trocar Chicago por São Francisco, na Califórnia. Sempre com Amy Yoes e o bloco de rascunho por perto.
Até que com a expansão da Internet, os preços de “San Fran” começaram a parecer-se com os de Nova Iorque. Já não se justificava ficar mais por ali. Em 1998, partem para a Big Apple, onde esperavam poder dar um impulso maior à carreira.
Estava outra vez sem emprego, mas agora via-se a viver numa das cidades mais caras do mundo. Os primeiros cinco meses foram passados no loft dos cunhados, até que encontrou uma casa no Leste de Manhattan, na East Village.
Todo aquele caldo cultural era a “inspiração perfeita”. Jorge Colombo não se sentia emigrante porque “em Nova Iorque as cartas estão todas baralhadas”. O conceito de nacionalidade diluiu-se e as pessoas formam grupos ou comunidades não em função da identidade étnica mas por causa de “afinidades culturais”.
Assim, começou com os Dailies, retratos de personagens que tinha a sensação de já ter visto “30 vezes”. “Os traços do rosto são um mero acidente biológico, ao passo que, por exemplo, aquilo que se veste é uma escolha cultural. É esse o aspecto que me interessa. O facto de usarem tatuagens, diferentes estilos de penteado, etc. E tudo porque as pessoas anseiam por pertencer a algo.”
A câmara digital, no início da década, fê-lo mergulhar na fotografia e nas curtíssimas metragens. O iPhone apenas confirma o gosto de Jorge Colombo em explorar novos instrumentos. “Antevejo que no futuro as pessoas não terão necessidade de comprar estas ferramentas. Elas estarão presentes no dia-a-dia. É como quando nós vamos para algum lado, não trazemos a nossa torneira. Mesmo assim, a água está sempre acessível.”
Voltar a Portugal, “não”. Saudades, “nem por isso”. Embora, aqui e ali, o trabalho o vá chamando (entre Janeiro e Maio, teve uma exposição fotográfica montada na Casa Fernando Pessoa, intitulada “Lisboa Revisitada”) e Amy goste do país -- “penso até que gosta mais do que eu” --, a verdade é que é em Nova Iorque que se sente em casa.
Lisboa ficará para sempre ligada ao passado. No futuro, talvez um retrato da capital no iPhone: “Já tenho feito tanta coisa baseada na imagem de Lisboa, que é natural que da próxima vez que me encontrar por lá faça a minha experiência também.”
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