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Na vanguarda do digital
por Alexandre Santos
Digital Arts / Portugal, Portugal, Maio de 2009
Nasceu em Lisboa em 1963. Trabalhou como ilustrador e designer e foi o director gráfico inicial de O Independente. Em 1989 mudou-se para os Estados Unidos, onde casou com a artista Amy Yoes. Viveu em Chicago, em São Francisco e, desde 1988, em Nova Iorque. Continuou a trabalhar como ilustrador e designer e também, a partir de 2000, como fotógrafo. Jorge Colombo publicou o seu trabalho em diversas revistas americanas. Em Portugal publicou três livros: Fullerton (1999), o catálogo da sua retrospectiva de desenhos dos anos 90 na Bedeteca de Lisboa; Do Grande E Do Pequeno Amor (2005), um romance fotográfico em colaboração com Inês Pedrosa; e Lisboa Revisitada (2009), fotografias colorizadas inspiradas em poemas de Álvaro de Campos, para uma exposição na Casa Fernando Pessoa. A partir de 2003 começou a trabalhar em vídeos digitais, inicialmente apenas com um minuto cada mas ultimamente um pouco mais longos. No meu imaginário de ilustradores favoritos o Jorge Colombo sempre será uma referência incontornável e, claro, foi uma escolha natural quando decidi colaborar com a DirectArts.
Na exposição Lisboa Revisitada, como foi voltar a uma cidade que tão bem conhece, ou conhecia?
Tentei o mais possível esquecer-me do que sabia dela, de modo a descobri-la tal como me aparece agora.
Acha que foi mais fácil, devido ao seu distanciamento físico e espiritual, interpretar as visões heterónimas de Fernando Pessoa, o Álvaro de Campos?
Claro, não são só a Arquitectura e a toponímia que mudam, a própria paisagem humana é diferente. Apesar das conexões que conservo, há um sentimento de me ter ausentado, excluído, que é muito explorado pelo Álvaro de Campos. Assinale-se que Fernando Pessoa consegue o efeito por meios puramente ficcionais -- Campos nunca existiu, Pessoa passou a vida adulta inteira no mesmo sítio --, enquanto eu de facto tive de me expatriar para fazer isto...
Sei que pretendeu dar uma certa intemporalidade a essas imagens, pintando-as para acentuar alguns aspectos. Fê-lo digitalmente?
Tudo, tudo digital. Há sempre a celeuma do digital contra o analógico, no meu caso é assim: admiro incontáveis coisas feitas sem computadores, tenho todo o respeito, eu próprio faço imensa coisa à mão, mas para mim trabalhar à máquina é uma extensão natural da forma como penso, como faço e desfaço e organizo e emendo. Trabalhar sem rede é uma estratégia forte, tem de se acertar à primeira, mas eu adoro poder multiplicar versões à velocidade quase do pensamento.
Recuando no tempo e mudando de temática, sei que não tem uma formação base de artes. Nos anos 80 esse tipo de curriculum não era tão importante porque tudo era tão novo, o fundamental era ter uma certa atitude e vontade?
A falta de educação foi um drama: bem gostava eu de ter sido ensinado por gente competente. Em vez disso achei-me nas mãos de imbecis a impingir-me Geometria Descritiva. Saí das Belas-Artes sem acabar o primeiro ano, e passei a trabalhar profissionalmente com a tal “atitude e vontade.” Honestamente acho que era tudo um bocadinho fraudulento, os meus hábitos de trabalho eram desorganizadíssimos e a estratégia era inexistente; mas uma certa mistura de intuição, descaramento e apoios permitiram-me safar-me.
Pode destacar alguns trabalhos dessa altura?
A colecção de desenhos que fiz para o JL entre 1984 e 1985, quando era dirigido pelo Mega Ferreira. Tenho feito coisas muito mais acabadas, mas nunca mais com aquela espontaneidade e sinceridade. Foi o meu Indra Club.
Um dos meus primeiros contactos com o seu trabalho foi na capa de Menos Que Zero, de Brett Easton Ellis, edição portuguesa, e o que mais me impressionou foi que pensava que a sua capa era proveniente da edição original. Não tinha personagens, mas tinha um certo ambiente, sempre lhe foi fácil captar atmosferas?
Claro que quando eu fiz a capa do Menos Que Zero nunca tinha estado em Los Angeles; agora que já lá estive (e detestei) acho muito pouco exacta, podia ter feito melhor. Mas continuo a gostar da capa, porque sei que quis dizer muito para muita gente; bem ou mal foi um ícone dos anos 80, e dou graças por ter tido a sorte de ter sido eu a fazê-lo. Numa noitada à pressa, depois de ter tido a ideia às tantas da manhã, no Frágil...
Nesse tempo já fotografava? Era uma espécie de repórter, pelo que li. Que imagens guarda com mais carinho dessa altura?
As de toda a gente que morreu. Ou dos que não morreram mas são outra coisa diferente. Há poucas pessoas que miraculosamente não mudaram quase nada -- devem dormir em criogénio --, mas em vinte ou trinta anos muda tanta coisa…
Ainda hoje é um coleccionador compulsivo de imagens? Não se cansa?
Não, preciso de olhar para elas, inspiram-me. Há meia-hora estive a pôr no meu iPhone imagens do David Hockney e do Guy Peelaert, só porque queria andar com elas no bolso.
Na América foi chegar, ver e vencer, ou abdicou de muito para estar onde está?
Passo a vida a dizer: em Portugal vive-se com muito mais conforto, e todavia Nova Iorque estimula-me muito mais. Mas foi uma trabalheira: no início porque trazia métodos de trabalho perfeitamente inadequados, e depois porque a concorrência é brutal, tem tanta gente interessantíssima, e temos que conservar a atenção dos clientes.
Actualmente que trabalho desenvolve mais? Fotografia ou Ilustração?
Actualmente ando a fazer desenhos num iPhone! Há um programazinho chamado Brushes que permite pintar com os dedos no ecrã com razoável subtileza. Têm sido bastante vistos, houve vários artigos publicados e imensas referências na Web. É o género de coisa que interessa às pessoas, o efeito da novidade.
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